segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O QUE É O BOLSONARISMO?



A política se perfaz por meio da representação, que pode se manifestar por signos, símbolos, ideias, etc. Quanto mais elevado o cargo a que se concorre, mais isso se materializa. No caso do presidente da república, o seu perfil pessoal, os valores e práticas que defende, sua história e seus discursos respaldam determinado pensamento social: é o que o pai da sociologia, Émile Durkheim, chamaria de “consciência coletiva”. Tocando em miúdos: Se o presidente é um apoiador declarado da tortura, os torturadores se sentem subjetivamente autorizados e respaldados para torturar, se relativiza o estupro, estupradores em potencial sentem-se mais encorajados, se não tem apreço pela liberdade os autoritários se sentem fortalecidos.

Vamos ao X da questão: Quem é Bolsonaro?

- Um deputado do baixo clero eleito e reeleito majoritariamente por saudosistas da ditadura militar, homofóbicos, misóginos e racistas no Estado símbolo da violência urbana e da corrupção, sem que nunca tenha movido uma palha para lutar contra isso no seu próprio quintal. Aliás, levou a família para a política, nunca abriu mão de nenhum privilégio - é useiro e vazeiro das mais arraigadas práticas da velha política.

Porém, há algo ainda mais assustador na política brasileira atual do que Bolsonaro: é o “bolsonarismo”

O que é o "bolsonarismo?

- Forma de pensar e interpretar o mundo e a realidade com fundamento em ideias e valores respaldados pelo discurso político historicamente defendido pela família Bolsonaro e mais recentemente pelos seus apoiadores políticos mais diretos. É o agrupamento pela representação política em acessão do arcaico, retrógrado, dantesco pensamento social que estava disperso e sob o controle do processo civilizatório e limite da lei, mas que encontrou na figura do capitão falastrão um símbolo de representação social e política, saindo das escuras e se apresentando a luz do sol. O “bolsonarismo” é a janela aberta para que o ódio a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a diversidade e ao multiculturalismo encontre respaldo político, se sinta representado e autorizado a “agir” de acordo com os seus métodos e concepções.

Não são poucos os casos que se acumulam de agressões, ameaças, constrangimentos e até assassinatos já registrados e que foram praticados por pessoas ligadas ao “bolsonarismo”, cujas motivações declaradas são racismo, misoginia, homofobia, discursos de supremacia e um outro carretel de coisas facilmente encontradas na coleção de discursos e declarações que formam a história política de Bolsonaro, dos seus filhos, dos seus assessores diretos e “homens fortes” escolhidos para um eventual governo: o seu vice fala de “auto-golpe”, seu economista de mais impostos, seu filho de prender ministro do Supremo e fechar a Corte...

Por justiça e honestidade, é preciso dizer que nem todo eleitor de Bolsonaro é soldado do "bolsonarismo". Tenho familiares, amigos, colegas de trabalho, alunos e conhecidos que votam em Bolsonaro e que estão muito longe de serem fascistas, racistas, sexistas, misóginos ou apologistas da violência. Isso é fato. Da mesma forma também é fato que há, no Brasil, pessoas e grupos que simpatizam e até defendem essas coisas, mas que, da redemocratização pra cá, nunca se sentiram representados por nenhum discurso ou candidato que, sob as suas perspectivas, respaldasse tais visões de mundo e da política - até a chagada de Bolsonaro! Portanto, afirmar genericamente que os eleitores de Bolsonaro são misóginos, racistas, sexistas, racistas, etc., não é um dado de realidade, há muitos que não são. Mas, dizer que os grupos e indivíduos que simpatizam com tais ideias, saudosistas da ditadura militar, neonazistas e supremacistas de todas as espécies estão entusiasmados e engajados na campanha do capitão e do general, é, igualmente fato e, portanto, dado de realidade.

É sempre bom reafirmar: nem todos os eleitores de Bolsonaro flertam com o fascismo, mas também não é possível negar que os que flertam com o fascismo votam em Bolsonaro.

No debate, inclusive na contestação do que se expõe nessas linhas, o bolsonarismo também se revela na estratégia argumentativa de defesa do projeto político do seu líder. Seja qual for o tema, a denúncia ou o questionamento, ele será rebatido imediatamente com os seguintes contra-argumentos:

- #B17;
- É melhor já ir se acostumando;
- Vai pra Cuba/Venezuela; e
- Aceita que dói menos.

O bolsonarismo, enfim, é um sentimento que se manifesta de diferentes formas, mas quase sempre com características excludentes e violentas. O bolsonarismo é maior e pior que Bolsonaro – ele é apenas o mantra utilizado para a manifestação das mais diversas formas de violência que vem sitiando a nossa sociedade.

Schopenhauer alertava, com um pouco mais cautela que Tiririca, que nenhuma situação está tão ruim a ponto de não puder piorar.


É melhor não pagarmos pra ver!

sábado, 20 de outubro de 2018

RECEITA PARA SE FAZER UM ESTADO DESPÓTICO E UMA SOCIEDADE OPRESSORA



PASSO A PASSO:

1. Comece atacando a liberdade, dizendo que ela é pernóstica e atenta conta a moral e os bons costumes. Para isso vingar é preciso deslegitimar e vilanizar os seus principais defensores: os intelectuais, os professores,  os artistas e os jornalistas: diga que culpa é deles e que é na arte, nas universidades e na imprensa que está o perigo;

2. Bata de cano de ferro no conhecimento científico, principalmente nas ciências sociais e humanas. Repita exaustivamente que os historiadores são farsantes e que sociólogos, antropólogos e cientistas políticos são na verdade comunistas, ateus e hereges que querem lhe enganar e levar a sua alma para a perdição;

3. Em seguida defenda fervorosamente que a fé religiosa (é claro, a sua fé, a sua religião) é mais segura é importante do que o conhecimento científico para a construção da sociedade. Afirme, peremptoriamente que precisamos de políticos que leiam e se submetam a Bíblia e não a constituição;

4. Relativize a verdade, diga que os professores são uns pervertidos e que sua vizinha já lhe mostrou uma matéria no celular dela que fala de um plano sinistro para acabar com a família tradicional por meio da liberdade que, na verdade, é libertinagem e imoralidade.

5. Agora, desmoralizados e criminalizados intelectuais, artistas, professores, jornalistas, defensores da liberdade e da democracia, diga que é chegada a hora de “botar moral” no país, que agora precisamos de um militar para acabar com as farras nas escolas, universidades, nas artes, nos movimentos sociais, na imprensa etc. Diga que precisamos de um pulso firme para defender a moral, a família e os bons costumes e que, se ele errar, ou seja, se não fizer o que a gente acha que deve ser feito, a gente tira ele depois.

6. Por fim, tudo bem batido formando uma massa pastosa, acrescente a gosto os seguintes comentários:
  • Não teve ditadura no Brasil e naquele tempo não tinha corrupção, violência e imoralidade;
  • Precisamos salvar o Brasil do comunismo;
  • Até concordo com a democracia, mas só acho que democracia de mais é anarquia e esculhambação: tem que botar moral!
  • É melhor já ir comprando passagem pra Cuba e pra Venezuela, pois num vai ter mais mamata pra negrada, viado, artista, professor pervertido, esquerdista, ateu, herege, defensor de Paulo Freire e essa corja de vagabundos das universidades. A partir de 1o de janeiro vai ser assim: Brasil, ame-o (calado e sem reclamar), ou deixe-o.

Pronto, a receita está pronta - é só colocar no forno. Se explodir o forno ou se der náuseas coletivas permanentes, a culpa foi dos intelectuais, artistas, professores, jornalistas... é só apagar a conta do Facebook e do Instagram e dizer que não teve nada a ver com isso.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

SEGURANÇA PÚBLICA: NOSSA ENTREVISTA AO PORTAL NE10

"NA AUSÊNCIA DO ESTADO, O CRIME PROSPERA", diz especialista

Após o ataque de criminosos à empresa de transporte de valores Brinks, na Zona Oeste do Recife, na madrugada dessa terça-feira (21), o NE10 conversou com o professor de criminologia no curso de Direito do Centro Universitário da FG, Isaac Luna*, sobre o sentimento de medo e insegurança que toma conta da população pernambucana com a onda de violência que só faz aumentar nos últimos meses.

Especialista em segurança pública, Isaac diz que o crime aumenta na medida em que faltam ações governamentais. Pacto Pela Vida, Governo Paulo Câmara, situação das policias e crime organizado estão entre os temas abordados pelo professor. Confira a entrevista pingue-pongue feita com Isaac Luna:

Em sua visão qual o principal motivo do aumento da criminalidade no Estado? Recentemente um secretário atrelou ao desemprego e à Operação Padrão da PM. É correta esta afirmação?
A violência não pode ser tratada a partir de causas exclusivas, ela é resultado de um conjunto de circunstâncias que atuam concomitantemente. Se isoladamente a Operação Padrão da Polícia Militar fosse responsável por esse aumento da criminalidade, por exemplo, as taxas deveriam estar sob controle até o início de dezembro do ano passado, quando teve início a operação, o que não se confirma na realidade, pois os números vêm sendo críticos já há três anos consecutivos, período no qual as taxas de homicídio cresceram 43%.
A piora dos indicativos sociais, tais como emprego, renda, etc., não pode ser negligenciada como parte do problema, mas também não pode ser colocada com a causa em si, vez que a situação das pessoas se agravou no País inteiro, mas em nem todos os lugares a violência galopou como por aqui.

Com a crise no Pacto Pela Vida (PPV), qual seria a melhor forma de combater a criminalidade, partir para um novo plano de segurança ou reinventar o Pacto?
O PPV é uma política bem estruturada nos seus fundamentos e no seu modelo, por mais de meia década foi apresentado como modelo exitoso no difícil campo da segurança pública, recebendo inclusive prêmios internacionais pelos seus resultados de instituições como a ONU e o BIRD.
Não tenho conhecimento de nenhuma proposta consistente de política pública para substituí-lo, apresentando novos fundamentos, metodologias e modelo de gestão.  Como toda política pública o PPV não é fechado, imutável, pelo contrário: tem abertura para revisões, adequações e mudanças. É preciso retomar a sua perspectiva transversal de diálogo e ação conjunta com outros setores do governo, com o Ministério Público, o Poder Judiciário, os municípios e, fundamentalmente, com as comunidades, resgatando a proposta de gestão democrática que o caracterizou n o início. Os próximos passos dirão se teremos uma recuperação vital ou um atestado de óbito do PPV.

Como o senhor enxerga a quantidade de efetivo de policia do Estado? Tanto da Civil para investigações, quanto da PM para policiamento ostensivo? Os PMs apontam déficit, este também seria um motivo para a insegurança?
As polícias são atores estratégicos em qualquer política de segurança pública. Se for verdade que não se faz segurança pública apenas com polícia, é igualmente verdade que também não se faz sem polícia.
O problema de efetivo é real, mas não é somente esse o ponto de fragilidade das corporações. A questão da valorização profissional, que vai desde a remuneração até as condições de trabalho com equipamentos adequados, viaturas seguras, condição interna dos quartéis, assistência médica, etc., devem ser levadas em conta. Poucas profissões carregam um nível de estresse tão elevados como o do policial, agente de ponta do enfrentamento de criminosos violentos. Se esse profissional não estiver motivado, dificilmente a polícia cumprirá a contento o seu indispensável e repito: estratégico papel na defasa social.

Hoje vemos crimes na Região Metropolitana que só vinham sendo praticados no interior. Ataques de bandidos fortemente armados a bancos ou crimes como houve nesta madrugada [terça] e recentemente em Porto de Galinhas. O que faz os bandidos começarem a praticar crimes deste tipo na RMR?
O crime se instala em ambientes favoráveis. A percepção de que as instituições de segurança pública do Estado estão fragilizadas acaba incentivando o criminoso habitual ou potencial a realizar a pratica do crime e a ousar cada vez mais, avançar cada vez mais diante dos espaços vazios deixados pelo poder público. Aqueles episódios dos saques às lojas em Jaboatão e em Paulista na greve da polícia, por exemplo, servem para ilustrar que a expectativa de não ser punido leva até mesmo pessoas que não são propriamente criminosas a arriscarem, ousarem na violação da lei. Na ausência do Estado, o crime prospera.

Os bandidos estão de porte de armamentos de grosso calibre, como disse o secretário de Segurança, "armas de guerra". Como combater esses tipos de bandidos que estão com armas que fogem da alçada da policia estadual?
A solução tem que vir pela inteligência, pela prevenção, buscando desarticular as quadrilhas e os canis de entrada desses armamentos no país. Na própria polícia há grupamentos especiais que possuem armamento e munição de grosso calibre, mas para serem acionadas em ocasiões e episódios especiais, não para ser força ostensiva permanente de patrulhamento.
Se a opção for pelo enfrentamento como estratégia principal e se não houver ações de prevenção e desarticulação desses grupos criminosos com armamento de guerra, permitindo que eles se espalhem pelo país, floresçam, iremos presenciar cada vez guerrilhas urbanas como a da Estância.

Além desses crimes, os delitos como assaltos a ônibus e furtos pela Região Metropolitana estão se tornando rotina. Como combater este aumento? Existe alguma forma de a sociedade colaborar?
A população tem que denunciar e cobrar as soluções das autoridades. Não é correto procurara transferir a responsabilidade do crime para a vítima, para o cidadão. Atividades simples e de rotina como andar de coletivo, passear nos calçadões ou ir a uma festa pública estão se tornando atividade de risco – e isso não pode ser tido como culpa da vítima, como se fosse um descuido. Nas sociedades democráticas, a liberdade, o direito de ir vir, a proteção da vida e da propriedade são direitos de todo cidadão e obrigação do Estado. O papel da sociedade é fiscalizar a conduta dos seus representantes, denunciar e cobrar as soluções de quem é de direito, ou seja: dos gestores públicos.

O governador trocou na última sexta o comando das polícias. Essa atitude deve melhorar a situação? Quais medidas o governo deveria tomar na sua visão?
Dada à crise, o governador tinha que tomar alguma atitude, e o que ele podia fazer de imediato era trocar os comandos, tentar reassumir o controle da situação e restabelecer o diálogo com as corporações. É evidente que apenas isso não é suficiente, mas é um movimento no sentido de procurar uma solução. As pautas estão colocadas, a operação padrão permanece, as mulheres dos policias se articulam para repetirem por aqui protestos e ações similares as ocorridas no Espírito Santo, enfim: a solução não será dada apenas pela troca dos comandos, o governador terá ainda muito trabalho por esses dias.
A Bancada de Oposição pediu apoio da Força nacional para o Carnaval e dias posteriores. O senhor acredita que realmente é necessário? Muito se fala das forças armadas não conseguirem fazer trabalho de polícia, trabalho ostensivo. Esse efetivo realmente pode colaborar com a segurança pública do Estado?
A opção pelas forças armadas deve ser sempre excepcional, a última medida dentre as possíveis a ser considerada. O exército, a marinha e a aeronáutica tem o dever de garantir a defesa nacional diante de ameaças externas, de ataques de inimigos no ambiente internacional, proteger as nossas fronteiras, para isso existem e os seus soldados são treinadas, formados e preparados: para a defesa e para a guerra.
A segurança civil tem outra característica, as polícias lidam com o cidadão, com a garantia da ordem interna e com essa finalidade também são formados os seus efetivos. Misturar defesa nacional com segurança pública no âmbito civil não é a melhor alternativa, apesar de que isso vem sendo feito com certa regularidade no Brasil nos últimos tempos. Não é à toa que nessa última segunda-feira (20) o presidente da república editou uma medida provisória alocando cem milhões de reais para o Ministério da Defesa cobrir os custos com o exercito nas ruas e nos presídios, dinheiro que poderia ser utilizado na necessária reestruturação das polícias sendo destinado as forças armadas. É um quadro preocupante.

Existe alguma forma de entendimento que o governo possa tomar com as associações de militares para garantir o retorno dos policiais às ruas? Como evitar esses tipos de conflitos? Esses conflitos são políticos? Se forem, como o governo pode impedir que a política não atrapalhasse a segurança dos cidadãos?
Não é possível afirmar que o movimento tenha motivação política, mas, da mesma forma, não é possível também afastar essa hipótese. O governador Paulo Câmara precisará de muito diálogo e, fundamentalmente de muito apoio para desatar esse nó. As reivindicações policiais são razoáveis, mas implicam em aumento de gastos em um momento de queda de receita e crise econômica do Estado. Não há uma solução fácil, principalmente porque a solução, seja qual for, não pode mais ser adiada, o governo tem que agir – e agir rápido.

O que é necessário para uma melhor polícia do Estado de Pernambuco? Mais treino? Mais armamento? Desmilitarizar? Enfim... Quais seriam as melhorias que poderiam ser feitas.
Esse debate sobre a reestruturação das polícias é muito intenso e com muitas variáveis envolvidas, com muitos argumentos consistentes em direções contrárias. O modelo de São Paulo, por exemplo, com regularização do efetivo, foco na formação, exigência de qualificação para progressão de patentes, modernização de equipamento e melhoria na remuneração pode ser um ‘case’ a ser perseguido, mesmo não perdendo de vista que a realidade e a saúde financeira do Estado lá são bem diferentes do que a nossa realidade.
O debate nesse campo é longo, mas indispensável se quisermos chegar a uma resposta satisfatória a essa questão.

Qual o futuro da segurança pública de Pernambuco na sua visão?
Essa não é uma questão fácil de responder. A situação não é boa e os indicativos de análise em curto prazo não são bons. Vivemos uma crise ampla de todo o sistema de justiça criminal: a criminalidade cresce nas ruas, os presídios estão lotados e submersos em um modelo falido, as varas criminais estão abarrotadas de processos e a população está amedrontada. A crise é evidente e não sairemos dela apenas apostando na repressão, por mais indispensável que ela seja. Se não tivermos engajamento dos múltiplos setores dos governos federal estadual e municipal e o diálogo permanente destes com a sociedade, poderemos ter breves momentos de alívio, mas logo seremos novamente amedrontados pela crise.
Investimento em inteligência, prevenção e políticas públicas de inclusão são tão necessárias no combate à criminalidade violenta como o fortalecimento das instituições coercitivas. Sem essa visão mais ampla do problema, o futuro é incerto...

Link da matéria no Portal NE10:

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

POR QUE UNS PROCESSOS PRESCREVEM E OUTROS NÃO? UM OLHAR CRIMINOLÓGICO SOBRE O "CASO JUCÁ"


“Estudar a criminalidade entre os presos é um erro, pois a maioria dos criminosos, sobretudo os mais habilidosos, não se encontram nesse ambiente” 
(Edwin Sutherland, A Prisão Como Observatório Criminológico,1930)

O senador da república (minúsculas propositais) Romero Jucá é uma velha raposa da política brasileira, estava nos bastidores, mas voltou aos holofotes com assunção de Michael Temer ao poder pós-impeachment da presidente Dilma Rousseff. É ele o cara da famosa proposta de fazer um “grande pacto nacional para estancar a sangria, com Supremo e tudo...” (relembre o caso e veja a transcrições completas: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml).

Pois bem, o digníssimo foi denunciado por desvio em obras de saneamento e em verbas da educação no seu Estado, Roraima, sendo nominalmente citado em uma gravação autorizada pela justiça de um telefonema do então prefeito da cidade de Cantá, na qual se falava da propina de 10% do valor dos contratos e de uma comissão no valor do contrato que seria do “Senador” (Veja o caso completo: http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/por-ausencia-de-indicios-e-prescricao-marco-aurelio-arquiva-investigacao-contra-juca/).

E então, esse processo não existe mais, foi arquivado ontem pelo STF com parecer da PGR. Vejamos apenas alguns trechos das manifestações das duas instâncias superiores da Justiça Brasileira:

Raquel Dodge, procuradora da república recentemente nomeado por Temer:

“Pelo que se extrai dos autos, as diligências apuratórias empreendidas pela autoridade policial, notadamente em razão do transcurso de período extremamente longo desde os fatos apurados, não se mostrou eficiente para comprovar a materialidade e a autoria de desvio recursos públicos e delimitar aqueles que se beneficiaram deste eventual desvio. A autoridade policial não apresentou dados minimamente plausíveis para a continuidade das apurações. Além disto, parte dos crimes investigados foram atingidos pela prescrição”.


Marco Aurélio Melo, ministro do STF que, alinhado ao entendimento da procuradora, acata o pedido e determina o arquivamento:

“O titular da ação penal preconiza o arquivamento do inquérito, apontando ausentes indícios de que o senador da República Romero Jucá Filho haja concorrido para o cometimento de crime. Aduz configurada a extinção da punibilidade do investigado ante a prescrição da pretensão punitiva concernente aos fatos tipificados no artigo 312 do Código Penal, com pena máxima de 12 anos, os quais teriam ocorrido nos anos de 1999, 2000 e 2001. Observado o inciso II do artigo 109 do Código Penal, a versar a prescrição em 16 anos para os delitos apenados com até 12, esta seguramente veio a incidir transcorridos mais de 17 anos. A manifestação é definitiva, tendo em conta a atuação do Órgão máximo do Ministério Público”


Vamos, então, a análise criminológica do caso:

Bem, como não sei desenhar, só me resta escrever - a prescrição da pretensão punitiva é um instituto válido e vigente previsto nos artigos 109 a 114 do Código Penal. Nesse caso, como bem fundamentou o ministro, aplica-se o inciso II do art. 109 do Código Penal, já que a pena máxima prevista para o crime de Corrupção Passiva (art. 312, CP) é de 12 anos:

Art. 109.  A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, salvo o disposto no § 1o do art. 110 deste Código, regula-se pelo máximo da pena privativa de liberdade cominada ao crime, verificando-se:
II - em dezesseis anos, se o máximo da pena é superior a oito anos e não excede a doze;

O problema que merece atenção e exercício de compreensão não é esse!

Entenda, para a Criminologia Crítica o problema central do sistema de justiça criminal não é a lei, mas as instituições responsáveis pela sua aplicação. O que o criminólogo crítico investiga prioritariamente não é a dogmática penal, mas a lógica de funcionamento do sistema persecutório e punitivo, suas estruturas, contradições e interesses, velados ou explícitos, que orientam os seus procedimentos e escolhas seletivas de quando, como e em que casos agir “eficientemente”.

A questão a ser analisada no caso de Jucá, por essa linha de raciocínio, não é se a decisão de Marco Aurélio está ou não amparada pela lei, mas sim a de que interesses estão por trás da decisão de fazer algumas investigações e processos andarem com celeridade e outros não. Quem decide isso? Qual o critério? Quais interesses estão em jogo nessa seleção de quem deve ser investigado e julgado com agilidade enquanto outros caminham solenemente para se abraçarem com a previsão legal, válida e vigente, da prescrição da pretensão punitiva do Estado?

Se você conseguir mudar o foco da sua análise da dogmática para essa perspectiva criminológica poderá chegar a conclusões inquietantes, mas reveladoras de uma realidade pouco discutida (por que?) nos estudos da justiça criminal no Brasil - dentre elas a de que o Direito Penal, a despeito de todo o seu discurso de legitimação, talvez não seja nada mais, nada menos, que um instrumento de exercício puro e manutenção do poder, acionado quando interessa, calado quando convém.


Abra o olho! 👁

Isaac Luna

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

JULGAMENTO DE LULA: O MUNDO DE OLHO NA JUSTIÇA BRASILEIRA

Depois do duro editorial do The New York Times contra a lisura dos métodos, motivos e procedimentos no processo de Lula, bem como uma alegada parcialidade do juízo de 1a Instância, intitulado “Com o Julgamento de Lula, Democracia Brasileira Está à Beira do Abismo” (Veja aqui: https://br.sputniknews.com/amp/brasil/2018012310346578-nyt-lula-julgamento-democracia/), o texto de Herta Däubler-Gmelin, ex-ministra da Justiça da República Federal da Alemanha, publicado hoje pelo El País, com o título “A Luta do Judiciário Brasileiro Contra a Esquerda”, deveria nos servir pelo menos de alerta sobre o que de fato está acontecendo no Poder Judiciário Brasil, sobretudo no que se refere a um Direito Penal "inovador" inaugurado pela chamada "República de Curitiba" (Acesse aqui:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/24/opinion/1516752475_259520.html?id_externo_rsoc=FB_CC).

Importante lembrar que o advogado da Comissão de Direitos Humanos da ONU, o britânico Geoffrey Robertson, foi autorizado e estará também presente no julgamento de hoje (24/01/18) no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), observando o padrão dos fundamentos dos votos em face dos Direitos Humanos, do Devido Processo Legal e dos princípios balizadores do Estado Democrático de Direito (Acesse aqui: https://noticias.r7.com/brasil/justica-autoriza-representante-de-lula-na-onu-a-assistir-a-julgamento-19012018?amp).

Observadores internacionais não estão entranhados no emaranhado do jogo de poder e de vaidades da política e da justiça brasileira, nem estão na arquibancada do fla x flu Lula/anti-Lula a que se reduziu o debate político no Brasil. Ouvi-los é prudente - a não ser que se considere estarem todos cooptados, da França a Alemanha, dos EUA a Inglaterra, pela "retórica esquerdopata" tupiniquim.

Tanto o editorial quanto o texto são muito contundentes, falam no mesmo sentido, concluem a mesma coisa e merecem, pelo menos por amor ao debate, serem lidos e debatidos objetivamente nos termos das alegações que fazem.

Talvez seja esse o momento propício para dar ouvidos ao que nos diz Saramago:  “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”

Isaac Luna

Imagem capturada em: http://www.luzdegaia.net/outros/diversos/seja_um_observador.html

sábado, 20 de janeiro de 2018

A ERA DO PÓS-PENAL

No rastro da pós-verdade, cujo conceito  foi suficiente explicado pela Universidade de Oxford e amplamente divulgado, inclusive pelas redes sociais, cresce a passos largos o fenômeno do “pós-penal”

A lógica é a mesma, ou seja: o que é definido como “verdade” ou “certo”, muito pouco ou nada tem a ver com a realidade objetiva. Tal qual na pós-verdade, o pós-penal orienta-se por desejos, crenças e pré-conceitos fundamentados em ditos correntes no senso comum.

Nessa pisada, a doutrina especializada e o estudo sistematizado do Ordenamento Jurídico-Penal e as suas relações com o Direto Constitucional, o Direito Internacional dos Direitos Humanos, a Criminologia, a Teoria Geral do Direito, a Filosofia e a Sociologia Jurídicas, dentre outros, passa a ser considerado um fetiche arrogante de quem lê, já que a “verdade” está dentro de cada um, de acordo com as suas crenças, desejos e entendimentos pessoais.

Um traço claro dessa realidade está presente nos discursos encontrados nos debates, mesmo que superficiais, das redes sociais que envolvem matéria penal, nos quais é possível se perceber claramente que os especialistas que se dedicam ao seu estudo estão muito menos cheios de certezas do que o observador de fora que emite sua opinião sobre a função, a interpretação e os institutos do Direito Penal e da legislação que lhe diz respeito.

Como as redes sociais são uma arena aberta onde qualquer pessoa, com qualquer qualificação, pode emitir qualquer opinião sobre qualquer assunto, a tendência é que a posição dos especialistas esteja sempre em desvantagem numérica, vez que a proporção entre especialistas e não especialistas que se pronunciam no debate é sempre desfavorável para aqueles. É certo que quanto mais o debate ocorra em espaços, grupos ou fóruns destinados a estudiosos no direito penal, mais essa proporção se inverte.

Não por outro motivo vivemos em um tempo onde é muito comum se escutar ou ler nos debates que “a culpa é dos especialistas” ou que “especialistas não sabem de nada”.  A propósito, o repertório da história universal é farto em mostrar que os intelectuais são quase sempre as primeiras vítimas de sociedades autoritárias e governos despóticos, não representando nenhuma inovação sociológica ou Histórica.

Claro: na órbita do pós-penal, quanto menos se lê, mais se sabe a lógica, as razões, a finalidade e o objeto das Ciências Criminais.

Ler amplia perspectivas, suscita dúvidas, possibilita argumentos lógicos e racionais fundamentados em dados objetivos e no conhecimento científico acumulado por séculos de investigação e produção acadêmica especializada. A “verdade” pós-Penal não tem qualquer compromisso com a lógica do conhecimento científico, ela apenas é, em si, verdade - a verdade de cada um.

Uma última questão: o pós-mãos limpas na Itália foi Berlusconi  e o pós-Saddam no Iraque foi o  Estado  Islâmico. O pós-penal pode ser, simplesmente, o retorno ao sistema inquisitorial do medievo...

Isaac Luna


domingo, 14 de janeiro de 2018

ELEIÇÕES 2018: UMA BREVE LEITURA DO CENÁRIO E SUAS POSSIBILIDADES



Eleições presidenciais tendem a ser estruturadas a partir da construção de narrativas que conquistem a simpatia, a empatia e a confiança das pessoas. 
Tais narrativas seguem uma lógica, geralmente orientada pelas seguintes  “teses chaves” implícitas nos discursos para disparar o gatilho mental e a emoção do eleitor:

A) esperanças de um futuro melhor: mais comum no caso das “novidades”, dos outsides e candidatos anti-sistema, que buscam convencer o eleitor de que são diferentes de todos que já governaram e de que podem fazer melhor (Luciano Hulk, Bolsonaro, João Amoedo, Guilherme Boulos, Marina...);

B) necessidade de manutenção das condições favoráveis do presente: Governo, no caso de reeleição, ou candidato apoiado pelo governo procuram convencer o eleitorado de que as coisas estão no rumo certo e de que a mudança poderia interromper o ciclo virtuoso vivido e comprometer as conquistas já alcançadas (Temer, Henrique Meireles, Rodrigo Maia, Geraldo Alckmin, etc...);

C) possibilidade de retorno a um passado positivo e saudoso (o futuro pode ser como já foi no passado): discurso de quem um dia já foi governo e busca convencer o eleitorado de que é possível voltar aos bons tempos, que sabe como fazer porque já fez (Lula ou o candidato do lulismo - Haddad, Jacques Wagner, Ciro, Manuela D’Avila, etc...).

Uma dessas narrativas prevalecerá em outubro e elegerá o(a) novo(a) presidente da república.

Faltam pouco menos de 9 meses para eleição, o grupo que está no governo tem que ter muita habilidade para emplacar uma narrativa positiva de convencimento das benesses da sua atuação e da necessidade da sua permanência. Isso, porém,  já está em curso, com o fies sendo restabelecido com juro zero, inicialmente. Até a eleição os preços públicos, principalmente gasolina, gás de cozinha e energia elétrica, podem despencar (os inacreditáveis aumentos de agora, tensionando os seus preços ao limite, são para criar a gordura necessária para o deságio na “reta final”)

Deverá haver também uma grande desoneração da cadeia produtiva e distributiva dos gêneros alimentícios, o que tenderá a reduzir bastante o preço da cesta básica. Se essa leitura tiver alguma valia. chagaremos nos meses que antecedem a isa da população as urnas com gasolina barata, gás barato, energia barato e comida barata. 

O “pacote de bondades” em ano eleitoral já é uma constante da política brasileira; se ele terá capacidade de fundamentar a narrativa de manutenção do governo, só o desenrolar dos acontecimentos dirá. Com os atuais índices de popularidade do governo, não será fácil, embora, como nos mostra a história, não seja impossível!

Há, sem dúvida, outras variáveis que atuarão na consolidação da estratégia e discurso que conquistará mais eleitores, mas sem desprezar os elementos aqui introdutória e simploriamente apontados.

A política, com sua dinâmica e seus 'enigmas', instiga o pesquisador social na construção de possibilidades e cenários. 

É esperar pra ver!

Isaac Luna